28 de maio de 2012
Eu, etiqueta
***
Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.
18 de abril de 2012
Um exercício: A Construção de um pensamento Sócio-Antropológico aplicado ao cotidiano da Moda
Público-alvo: Profissionais e pesquisadores de moda nos campos da Administração, Artes Plásticas, Arquitetura, Comunicação, Design, Figurino, Marketing e áreas afins.
Objetivo: A proposta deste mini-curso consiste em trazer para o campo da moda - o pensamento Sócio- Antropólogico. Ressaltando sua importância na vida social e na construção e definição dos componentes culturais, tais como o vestuário e a moda. As ciências sociais quando pensam em moda, sua preocupação consiste em analisá-la como fenômeno social verificando seu desdobramento e circulação por meio da identidade sócio-cultural dos vários grupos sociais presentes em determinado tempo e lugar.
Ao falarmos de Moda, nos referimos à peças que os indivíduos portam sobre seu corpo, refletindo em símbolos e representações. Imprimindo expressões de um valor social construído do grupo pelo qual participa, valor este arquitetado na produção cultural e política que organiza estes corpos. Sem esquecer, que a moda ocupa um lugar central em nossas vidas porque nos permite definir nossa identidade social
Metodologia: Trabalho em grupo, em formato workshop para ser exposto a realidade vivenciada no cotidiano desses profissionais/pesquisadores no campo da moda.
Bibliografia
BRAGA, João. História da Moda no Brasil: Das influências às auto referência. São Paulo: Disal, 2011.
CARVALHO, Flávio de. A Moda e o Novo Homem. 2. ed. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2010.
CRANE, Diane (2000). Moda e as suas agendas sociais: classe, gênero e identidade na roupa. University of Chicago Press.
FREYRE, Gilberto. Modos de homem & Modos de mulher. 2. ed. São Paulo: Global, 2009.
GODART, Fréderic. Sociologia da Moda. São Paulo: Senac, 2010.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: Um conceito Antropológico. 12. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1999.
LAVER, James. A roupa e a Moda: Uma história concisa. São Paulo: Companhia Das Letras, 2010.
MAUSS, Marcel. As Técnicas do Corpo. In: MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2005.
MARTINS, Carlos B. O que é Sociologia. 12. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. (Coleção Primeiros Passos).
ORTIZ, Renato. Gostos de classe e estilos de vida. In: ORTIZ, Renato. A Sociologia de Pierre Bourdieu. São Paulo: Olho Dágua, 2005.
SIMMEL, Georg. Filosofia da Moda: E outros escritos. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2008.
SOUZA, Gilda de Mello e. O Espiríto das Roupas: A Moda no Século Dezenove. 6. ed. São Paulo: Companhia Das Letras, 2009.
Ministrante: Mi Medrado - pesquisadora no programa de Ph.d da Universidade da Califórnia - Los Angeles.
Carga horária: 6 horas
http://coloquiomoda.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=341&Itemid=238
R$ 40, 00 reais.
15 de abril de 2012
Lars Svendsen: Moda: Ausência de crítica séria e descomprometida
Ciência e Cultura
Print version ISSN 0009-6725
Cienc. Cult. vol.62 no.2 São Paulo 2010
ENTREVISTA Lars Svendsen
Por: Astrid Façanha
PARA O ESCRITOR E PROFESSOR DE FILOSOFIA NA NORUEGA, DESDE QUANDO O CONCEITO DE ALTA COSTURA FOI ACEITO, EM 1860, A MODA ASPIRA OCUPAR SEU LUGAR NO MUNDO DA ARTE.
Lars Svendsen, professor associado do Departamento de Filosofia, da Universidade de Bergan, na Noruega, e autor do livro Fashion: a philosophy (editora Reaktion) esteve no final do ano passado, em São Paulo, para uma palestra sobre a crítica jornalística, no evento Pense Moda. Segundo o filósofo, desde quando a haute couture foi introduzida por volta de 1860, a moda aspira fazer parte do universo da arte, do qual foi excluída no século XVIII, quando passou a ser considerada mero ofício ou artefato.
Ainda assim, alguns dos primeiros designers de moda como Charles Frederick Worth (1825-1895) e Paul Poiret (1879-1944) se consideravam artistas e gostavam de pensar que criavam não sobre encomenda, mas a partir da própria subjetividade. Worth passou a "assinar" suas obras, ao colocar etiqueta com seu próprio nome nas suas roupas. Poiret tinha uma visão romântica da moda, criava peças autorais, se inspirava em correntes artísticas da sua época além de ser colecionador de arte e frequentador de ateliê de artistas.
Para Svendsen, uma das razões da moda não ter a credibilidade como arte é a falta de uma crítica séria e consistente que avalie a sua produção, o que faz com que a mesma acabe sendo vista como mera commodity. Em sua opinião, a cobertura de moda feita pelos grandes jornais é, em geral, superficial. Por outro lado, a proximidade dos jornalistas especializados com o mundo da moda acaba por gerar um tipo de reportagem comprometida, que mais exalta do que avalia. Ele reforça a importância da produção de moda ser submetida ao julgamento analítico e crítico como forma de legitimar o campo.
A boa crítica, pontua o filósofo, deve ser independente e trazer com clareza a descrição, interpretação e contextualização da obra. Por outro lado, ele admite se tratar de um gênero subjetivo que, inevitavelmente, traz à tona o repertório do próprio crítico. Svendsen vê com bons olhos a crítica negativa, ainda que seja rara e acabe por gerar ressentimentos. "Chegou a hora de a moda amadurecer e aceitar a crítica ruim".
Svendsen acredita que o jornalismo de moda tem um papel fundamental na avaliação da produção de bens de consumo e usa um termo do sociólogo francês, Pierre Bourdieu, para reforçar que a imprensa é responsável por "criar criadores". Porém, esclarece que a crítica é um gênero de cobertura jornalística, que não tem nada a ver com a promoção de marcas e grifes que é feito pelas assessorias de imprensa, cuja linguagem acaba sendo reproduzida na mídia.
Além disso, reforça que os jornalistas de moda não deveriam ser vistos como escravos dos estilistas e marcas. Infelizmente, segundo ele, o que se nota, é uma enorme dependência na indústria, da parte dos profissionais da imprensa, cujo papel deveria ser desafiar o sistema. "O papel do jornalista e crítico é produzir com qualidade, na área em que atuam, para que suas próprias condições profissionais sejam fortalecidas".
ASTRID FAÇANHA Você escreveu outros livros de filosofia – como The philosophy of evil, de 2001 e A philosophy of boredom, em 2004. Como chegou no Fashion a philosophy?
LARS SVENDSEN Tem um capítulo no livro, A philosophy of boredom, que aborda o assunto, a partir daí, cheguei à conclusão que deveria escrever uma filosofia da moda.
Por que a moda passou a despertar tanto interesse?
A moda é uma importante manifestação da cultura contemporânea. Eu me preocupo em entender quem somos, por que nosso comportamento é assim e, por aí vai. Portanto, devido à influência cultural da moda em nossas vidas, se tornou óbvio, para mim, que se trata de um assunto que merece uma investigação profunda e séria.
Você foi recriminado por seus colegas intelectuais quando decidiu investigar a moda no campo da filosofia?
Meus colegas acadêmicos acharam que eu tinha ficado louco, pois consideram que a moda, definitivamente, não é assunto para um filósofo sério. Ao mesmo tempo, muitas pessoas da moda acharam que eu apresentei o assunto de maneira chata e difícil de entender. Alguns estilistas, porém, mandaram e-mail dizendo que tinham gostado muito do livro.
E a reação da mídia ao livro?
A maioria dos jornalistas de moda ficou chocada com a minha crítica ao jornalismo de moda. O meu comentário favorito foi de uma profissional, reclamando de eu não ter dado ênfase ao lado divertido e brincalhão da moda.
Qual a importância do pensamento reflexivo na moda, de que forma afeta a criatividade?
Vou citar Sócrates nas palavras de Platão, sobre isso: "A vida sem reflexão não vale a pena ser vivida". Portanto, diria que, uma roupa feita sem reflexão não vale a pena ser vestida. Acredito que esta é uma reposta divertida para uma pergunta séria!
Para a crítica de moda a reflexão é inevitável…
Críticos de moda deveriam ser capazes de explicar, para seus leitores, porque uma coleção foi um sucesso ou um fracasso e ajudá-los a adquirir uma percepção mais ampla da sua própria relação com a moda. Na realidade significa ensinar o leitor a arte da crítica, de ter a capacidade de emitir um julgamento que seja sustentado por uma razão. Significa conduzir o leitor para abaixo da superfície, para entender a relevância desses artefatos para suas vidas. Afinal, os críticos também podem exigir algo dos seus leitores, que eles se tornem reflexivos!
Como deve ser a crítica de moda?
A crítica de moda deve ser rigorosa, colocada com clareza e informada historicamente. Não deve minimizar ou simplificar como grande parte da crítica de moda atual faz, nem ser desnecessariamente obscura, como é grande parte da crítica contemporânea de arte. A crítica deveria buscar vitalidade e audácia, distinguir o original do derivativo e pontuar o desenvolvimento do designer, mostrar momentos de mudanças e ciclos e tentar identificar esses momentos, além de se perguntar sobre tais escolhas estéticas em particular. Além disso, ressaltar técnicas, materiais e, por fim, emitir um julgamento. Porém um julgamento com propriedade, não uma mera opinião sem fundamento. Críticos nunca conseguem ser completamente objetivos, porém deveriam justificar suas opiniões.
O que faz a crítica de moda subverter a crítica tradicional?
Claramente, críticos de moda têm pouca força, alguns já foram banidos de desfiles por terem escrito críticas negativas, isso não acontece em outras áreas. Tanto na literatura quanto nas artes plásticas a crítica negativa é aceita, mesmo que o artista não fique muito contente com os resultados. Às vezes, as críticas mais interessantes sãos as negativas, até as obras-primas têm seus defeitos e muitas vezes são esses defeitos que as tornam interessantes. Porém, quando lemos sobre moda nos jornais e revistas somos levados a acreditar que só existem obras-primas impecáveis no reino da moda.
Você cita inúmeros filósofos no seu livro, de Platão à Immanuel Kant e Adam Smith. Por outro lado, explora pensamentos de sociólogos modernos como Georg Simmel, Walter Benjamim e Pierre Bourdieu. Em sua opinião, de que forma as diferentes correntes de pensamento interferem na interpretação que é feita da moda. Poderíamos dizer que a filosofia tem um viés mais moralista e a sociologia mais comportamental?
A filosofia quer saber o que é certo, quem está certo o que é a verdade, este é um ponto de vista filosófico. Nós, filósofos, levamos a investigação para esse lado. Por outro lado, Simmel, era um sociólogo que se considerava um filósofo, inclusive escreveu a obra chamada A filosofia da moda. Independente das possíveis abordagens, o fato é que a moda tem conquistado um papel cada vez mais significativo na cultura contemporânea, portanto é importante preparar-se para entender o fenômeno. Veremos cada vez mais artigos e longos ensaios sobre moda e crítica de moda, portanto é natural que se caminhe para uma filosofia de moda. Como diria a filósofa Hanna Arendt: "Pensar é uma atividade positiva que ao mesmo tempo nos distrai e subestima nossos hábitos e regras". Segundo Arendt, "todo pensamento exige que se pare e, pense". Portanto o mais importante é dar uma passo atrás para ganhar alguma perspectiva.
Você desconstrói as teorias clássicas de moda, articuladas por pensadores como Anne Hollander, Roland Barthes e Gilles Lipovetsky, para citar alguns. Qual desses teóricos faz mais sentido para você?
Adoro o Gilles Lipovetsky, especialmente o seu livro O império do efêmero. Porém, discordo da maioria dos pontos de vista colocada por ele, mas é um dos melhores livros para se discordar que conheço! Infelizmente Barthes é impossível de ler. O seu livro – Sistema da moda – demanda um esforço enorme para entender e, no final, não acrescenta muito. O Simmel é muito bom. Acredite-se ou não, o escritor escocês Thomas Carlyle escreveu um livro há 200 anos – Sartor Resartus – que é totalmente pós-moderno e contém ótimos insights sobre a moda, apesar de se tratar de um romance esquisitíssimo!
E quanto a você, o que pensa da moda?
A moda é um assunto complexo. Não consigo resumir em uma única resposta. Se pudesse responder com duas frases, não teria escrito um livro inteiro sobre o assunto!
Astrid Façanha é jornalista especializada em moda, mestre em ciência da informação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Leciona nos cursos de graduação e pós-graduação em moda da Faculdade Santa Marcelina e do Centro Universitário Senac/SP. Email: astridfacanha@terra.com.br
9 de abril de 2012
Por um mapa antropológico da moda
Print version ISSN 0009-6725
Cienc. Cult. vol.62 no.2 São Paulo 2010
Por um mapa antropológico da moda
Tarcísio D'Almeida
O ANTROPÓLOGO ITALIANO MASSIMO CANEVACCI QUE, ALÉM DA MODA, TEM SE DEDICADO AOS ESTUDOS DOS COMPORTAMENTOS CULTURAIS CONTEMPORÂNEOS, DEFENDE UMA AMPLIAÇÃO DOS DEBATES EM TORNO DA MODA.
Entender a moda pelo enfoque antropológico. Esse é um dos roteiros de reflexão que permeia a atual trajetória intelectual do antropólogo italiano Massimo Canevacci, autor de Culturas extremas: mutações juvenis nos corpos das metrópolis (DP&A, 2005). Titular da cadeira de antropologia cultural na Faculdade de Sociologia da Universidade La Sapienza de Roma e professor visitante nas universidades de Frankfurt e de Nova York, Canevacci é autor de inúmeros livros que abordam estudos sobre antropologia das artes visuais, do cinema e das culturas urbanas.
Em sua primeira visita ao Brasil (1), Canevacci discutiu quais são as articulações existentes na moda, que atuam desde sua produção imaterial, seu consumo, as redes de contradições da mesma, além de enfocar ideologia e modismos. Para o antropólogo, o estudo sobre o tema, a partir de vários enfoques e correntes de pensamento, só melhora a sua compreensão.
A seguir, entrevista exclusiva realizada com Canevacci, onde sua perspectiva antropológica da moda pode ser amplamente debatida durante o seminário na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) (2).
Tarcisio D'Almeida Sua trajetória intelectual tem sido voltada à antropologia do cinema, dos estudos de cultura visual nas metrópoles. Como surgiu esse interesse pela moda?
Massimo Canevacci Nesses últimos anos fiquei interessado pelos estilos da cultura juvenil e a moda está inclusa nesse interesse também, sobretudo pela forma figurativa e a expressão de linguagens do corpo que contribuem nas concepções de comunicação visual desse fim de século.
Você acha que, no caso da moda das tribos urbanas dos anos 1990, há uma profusão de imagens dialéticas nessa cultura tipicamente urbana em busca da liberdade de estilos?
Acho isso extremamente importante. É esse sistema de comunicação específico dos jovens, que surgiu com o hip hop [movimento musical dos negros dos subúrbios norte-americanos], que fez mudar os estilos de se vestir. Funcionou como um movimento contrário, saindo das periferias para os grandes centros. Com isso, temos uma comprovação de que a moda não é só produzida do centro para as periferias. A criação estética de estilos pode ser proveniente das camadas menos privilegiadas também.
Em quais direções apontam as abordagens de moda da fase posterior às contribuições sociológicas de René König e Georg Simmel e da semiologia de Roland Barthes?
A questão fundamental da relevância das contribuições desses autores, pelo menos para minha abordagem, é a de que a distinção do dualismo entre o orgânico e o inorgânico (o material e o cultural) perdeu espaço. Gosto das tendências surgidas com a mescla entre moda e arte na contemporaneidade, pois experimentar fusões entre dois estilos (expressões) é uma marca de comunicação visual pós-dualista. O trabalho dos estilistas e artistas fica mais enriquecido com essa fusão de visões e estéticas criativas no mundo da moda; o emprego de tecnologias, como a cyber, cria toda uma rede de trocas constantes entre os dois campos. Os limites da moda são invisíveis.
Além de forte polo de criação, como a Itália reflete moda atualmente?
Sem sombra de dúvida, Milão é um dos centros financeiros mais importantes no mundo da moda. É a capital pós-industrial da moda na Itália. Existem os vários conglomerados de empresas, como Prada, entre outras, que respondem por boa parte da produção econômica nacional. Em contrapartida, a produção acadêmica italiana sobre moda também tem seu destaque, sobretudo a partir dos anos 1960/70.
Qual seu diálogo com as obras de Gillo Dorfles (com seus dois livros sobre moda) e outros autores como Francesca Alfano Miglietti (ou FAM) e seu estudo sobre as mutilações no corpo contemporâneo?
Realmente, Gillo Dorfles é um autor fundamental na Itália. Ele aborda as formas estéticas e da mídia italiana. Sou bastante interessado também na relação entre as formas comunicativas, da arte e da moda. Com isso tento fazer um estudo da produção e interrelação construída na mescla desses campos a partir de uma visão dos conflitos semióticos. Meu enfoque está mais centrado na constituição da vida nas metrópoles na comunicação (ambas marcadas pela pós-modernidade) do que no trabalho tradicional. Tento acompanhar o trabalho da FAM, pois ela consegue convergir exatamente essa visão caótica das problemáticas da contemporaneidade, sobretudo na sua revista Virus, sobre os vários processos de mudanças/mutilações no corpo e na moda.
O sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, no livro Modos de homem & modas de mulher (1987), apontou as ideologias, as modas, os modismos, os costumes e comportamentos do Brasil desde o século XIX. E, hoje, como você vê essas (inter)relações?
Normalmente muitos antropólogos não se interessam pela moda, acham-na um tema frívolo e efêmero demais para a academia. Mas é um objeto de estudo relevante sim, como qualquer outro, pois tem a ver com comportamento e atitudes psicossociais dos indivíduos. Precisa dos vários enfoques científicos e se Gilberto Freyre já fez sua contribuição intelectual porque nós não damos continuidade? A minha única advertência é de que a antropologia e a sociologia têm de tomar certo cuidado com a produção imaterial na pós-modernidade.
A produção de moda está mais voltada à identificação de estilos, estéticas, ou meramente ao consumo de bens?
Os estilos de vida são muito interessantes e pluralizados no mesmo indivíduo, que pode vestir-se e se travestir várias vezes durante um mesmo dia. E é essa capacidade e liberdade que traz o significado da amplitude da contemporaneidade. Isso significa que a identidade não é mais parada, fechada, mas sim aberta para a experimentação das "identidades"; ela é mais fluída, líquida.
Tarcísio D'Almeida é pesquisador e professor do Curso Design de Moda da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (EBA-UFMG). Pertence ao conselho editorial da revista acadêmica de moda Dobra[s] e é pesquisador-associado do Groupe d'Étude sur la Mode, da Université de Paris V, Sorbonne. Escreve sobre moda para os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Email: tarcisio.dalmeida@gmail.com
NOTAS
1. Entrevista inédita, realizada durante o seminário ministrado pelo antropólogo, em 19 e 20 de novembro de 1999 —" Cultura da moda: panorama antropológico da moda como produto"— no Centro de Estudos da Moda, da Escola de Comunicações e Artes da USP
2. Além do pensador italiano, o Centro de Estudos da Moda da ECA-USP já havia acolhido, em abril de 1999, o filósofo francês Jean-Louis Santoro, no seminário avançado sobre "Moda e literatura". No ano seguinte, foi a vez da professora Lesley Miller, coordenadora da pós-graduação em história de têxteis e do vestuário, da Universidade de Southampton (Inglaterra), que debateu a "Perspectiva histórica e mercadológica da alta costura". O filósofo e ensaísta francês Gilles Lipovetsky, da Universidade de Grenoble (França), abordou "A moda e a mulher nas sociedades pós-modernas", e a pesquisadora Ana Martínez Barreiro, da Universidade de La Coruña (Espanha), ministrou um seminário avançado sobre "Uma nova cultura da moda". Com essa agenda, conseguiu-se estabelecer uma sinergia com vários intelectuais do exterior para enriquecer o debate sobre moda no, hoje inexistente, Centro de Estudos da Moda da ECA-USP, projeto sob a batuta do professor Victor Aquino, na época, diretor da ECA-USP e do Centro de Estudos da Moda. De certa forma, tais eventos contribuíram, junto à reitoria, para o projeto que resultou na criação do Curso Tecnologia Têxtil e da Indumentária (recentemente modificado para Têxtil e Moda), da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. No início, havia a intenção da ECA sediar o curso de moda mas, com o projeto de expansão universitária, esse, assim como outros novos cursos, acabaram incluídos na nova unidade da universidade, localizada na Zona Leste da capital paulista.
2 de abril de 2012
30 de março de 2012
20th Annual Art of Motion Picture Costume Design exhibition
O figurino do filme The Artist (2011) foi considerado o melhor pela Academy of Motions Pictures Arts and Sciences.
O filme teve o seu figurino feito por Mark Brigdes que ressalou que o seu trabalho foi uma “love letter to Hollywood”. Os trajes mostraram sua dedicação para os filmes da era do cinema mudo. Pois conseguiu demonstrar uma história com texturas e contrastes
O segundo melhor figurino foi o do filme Hugo feito por Sandy Powell.
S. Powel que já levou 3 estatuetas, apresentou neste trabalho uma abordagem diferente. Segundo ele como tudo é visto através dos olhos de uma criança, simplificou o olhar para apenas um, talvez dois trajes para cada personagem. Aproximando os trajes como se fossem ilustrações de um livro infantil de imagem, mantendo a aparência simples, gráfico e colorido.
A terceira nomination foi para Michael O'Connor pelo trabalho feito em Jane Eyre.
Para Michael O'Connor existem diferentes versões de Jane Eyre, mas foi possível contá-lo com base nos penteados. Sua vontade foi dar enfâse a realidade e reproduzir na roupas conforme a história foi escrita e respeitando os modelos épicos. Para isso, valorizou os algodões, tecidos e texturas.
Quem também foi classificada como melhor figurinista foi a atriz LISY Christl com sua produção no filme Anonymous.
A figurinista que estava entre os atores principais, teve a tarefa árdua de vestir três diferentes grupos - a 'nobreza', a 'burguesia', e 'a multidão ". O eleco tinha no total de cerca de 1.500 pessoas.
26 de março de 2012
A Construção de um pensamento Sócio-Antropológico aplicado ao cotidiano da Moda
Um exercício: A Construção de um pensamento Sócio-Antropológico aplicado ao cotidiano da Moda
Não preciso dizer que fiquei feliz. Agora é preciso lotar a sala de aula!!!



